O que não me mata, fortalece-me; ou não – uma visão sobre o filme “fragmentado”

Como uma situação adversa tem o poder de afetar uma pessoa, não é verdade? Não sei você, mas eu já passei por algumas durante a minha vida e com certeza possuo cicatrizes desenhadas em minha alma por consequência delas. A vida nos faz passar por isso, todo ser humano está passível de ao menos uma vez na vida passar por uma situação adversa.

É explorando esse terreno pantanoso das situações adversas e lembrando de um filme que assisti na semana passada chamado “Fragmentado” é que pretendo trazer uma breve reflexão aqui. Se você ainda não assistiu ao filme, assista.

Eu e um grupo de amigos assistimos ao filme e concluímos o seguinte… mas antes da conclusão, vou falar mais ou menos o que o filme trata, segura aí que lá vem spoiler.

O personagem principal tem um transtorno psicológico chamado “transtorno dissociativo de identidade” – o TDI. Esse transtorno é mais conhecido como transtorno de múltiplas personalidades. Nele, a pessoa se “fragmenta” criando um variado número de personalidades.

No filme, o personagem fragmenta-se em 23 personalidades diferentes. Sim, é possível que isso aconteça na realidade. Mas qual a razão de uma pessoa desenvolver o TDI?

As personalidades múltiplas surgem e são usadas como um mecanismo de defesa para fugir de uma situação de estresse “insuportável”. A personalidade fragmenta-se na tentativa de lidar com situações adversas.

Tenho que falar um pouco do transtorno para chegar no ponto que quero passar pra você. No filme, percebe-se que o personagem passa pelo o que parece ser um trauma ou várias situações aversivas na infância em que a sua mãe o agride verbalmente por ele não manter um cômodo da sua casa organizado.

Pronto, parece aí – uma situação, ou uma sequência de situações aversivas – ser o gatilho para o desencadeamento do TDI. Para lidar com essas circunstâncias de enfrentamento com a mãe, o personagem “fragmenta-se”.

Durante o filme, também existe uma outra personagem, a única dos coadjuvantes a ter a sua história de vida revelada, que também sofreu com uma situação traumática na infância. O seu tio cometeu uma série de abusos sexuais no decorrer da sua história de vida. E pelo que se percebe no filme, talvez ainda o fazia.

Pronto, encontramos dois personagens que sofreram com situações traumáticas. Moralmente avaliando, a situação da personagem coadjuvante seria “mais grave”, a saber, sofria abuso sexual durante um período de tempo; enquanto que o personagem principal sofreu com agressões verbais de sua mãe.

Se, no senso comum, colocarmos na balança os dois tipos de traumas, qual seria o mais pesado e qual julgaríamos com maior gravidade?

Tenho certeza, pelo menos quase certeza, que você responderia que o caso mais grave seria a situação do abuso. O “incrível” (olha as aspas) é que no filme, o paradoxo está instalado: o caso que reverberou de maneira mais grave não foi o do abuso sexual, mas o da agressão verbal.

Estou fazendo um juízo de valor baseado nas consequências das atitudes dos dois personagens aqui citados. O protagonista, que apresenta o TDI, teve essa maneira de lidar com as situações adversas que apareceram durante a sua vida, enquanto que a coadjuvante lidou de maneira diferente, ao que se percebe no filme, ela lida com a situação de abuso sexual automutilando-se e isolando-se do convívio social. Um outro comportamento do protagonista é que uma de suas personalidades apresenta um padrão de comportamento de um serial killer.

Cheguei no ponto que desejo destacar ao escrever essas breves linhas aqui. Como já dizia Nietzsche, “o que não me mata, fortalece-me”. Ao chegar ao final do filme, chego a algumas possibilidades e percepções sobre a vida prática.

Durante o filme foram apresentadas duas pessoas diferentes de maneira destacada. O personagem principal sofreu e agora de alguma maneira luta para fazer outras pessoas sofrerem. Já a outra personagem sofreu e o seu sofrimento a ajuda criar estratégias para enfrentar situações estressantes.

Daí podemos “caetanear” (Walter Franco apud Caetano Veloso) a frase do Nietzsche colocando o “ou não” ao seu final para concluir a respeito do personagem principal: “o que não me mata, fortalece-me ou não.”

Lembro-me então de uma outra frase muito famosa agora do Jean-Paul Sartre quando ele diz: “Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim”.

E com essa frase deparo-me com a atitude da personagem coadjuvante. Ela, apesar do sofrimento, luta para salvar as suas companheiras e luta em favor da vida. Ela luta dizendo sim à vida durante todo o filme.

Toda pessoa passará por uma situação de sofrimento durante a sua vida, porém toda pessoa tem a possibilidade de escolher o que fazer com o sofrimento que a aflige ou afligiu em algum momento de sua história.

Porém existem pessoas que ficam presas no cárcere da situação traumática. Esse cárcere é opcional. O trauma acontece e coloca o homem em um lugar, em um ambiente tenebroso, desconfortável, pantanoso. Porém, esse ambiente não é fechado, existem portas abertas e saídas disponíveis sempre que o homem quiser andar e seguir alguns passos adiante.

Uns decidem apreciar e acreditar que aquele ambiente pantanoso é o único ambiente possível, enquanto outros decidem sair e explorar as possibilidades e descobrem paisagens magníficas fora do pântano do trauma, da mágoa, da ferida e da dor.

 

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