Carnaval – baile das máscaras

Em tempos modernos, o Brasil é listado, pela OMS (Organização Mundial de Saúde), como o país mais ansioso do planeta. Esse relatório foi publicado pós-carnaval de 2017, Depois da “festa da alegria”, da festa que “caracteriza” o povo brasileiro, como o povo feliz, carismático, alegre, contagiante, etc.

Os gringos olham para o Brasil e encontram vestígios de felicidade, de resiliência. “Como podem ser felizes diante de tanto sofrimento?”, “Como podem sentir alegria sendo um país ‘em desenvolvimento’?”. Essas e outras questões são colocadas por aqueles que vivem além daqui, do outro lado desse paraíso, da pátria amada, Brasil.

Porém, esse povo alegre, feliz, na verdade é o povo mais ansioso do mundo e o mais deprimido da América Latina. Aqui, nessa altura, um contrassenso é estabelecido e escancarado na passarela da alegria do país.

Na festa das máscaras, o povo por trás dessas, com certeza parece utilizá-las com o objetivo de manter-se anônimo. Porém, ao contrário daqueles nobres que iniciaram essa tradição, em Veneza no século XVII, para manterem-se escondidos no meio povo e assim curtirem a festa misturando-se com a “ralé”, as máscaras brasileiras parecem ter um novo simbolismo nos tempos modernos.

Talvez uma tentativa à fuga. O anônimo aqui não é o rosto, mas o vazio. O desconhecido aqui é a angústia, o medo, a ansiedade. Na tentativa de fugir à si, coloca-se máscaras, que são temporárias, efêmeras, agudas e intensas em suas experiências.

É no carnaval que muitas pessoas decidem viver aquilo que não viveriam em suas rotinas ou até mesmo em outras oportunidades de diversões. São quatro, cinco dias tão intensos que quase não existe tempo nem para dormir. Noites são viradas na tentativa de buscar aquilo que não encontram diariamente.

A intensidade do baile é o que o torna tão especial. A maioria dos brasileiros conta a sua experiência de carnavais passados como se fosse troféus, estandartes tremulando no castelo que é a vida.

Muitas vezes castelos cheios. Cheios de poltergeist, espíritos barulhentos, perturbadores da paz que nunca vão embora. Mas no baile das máscaras, o seu barulho fica minimizado, abafado, pelo próprio barulho do baile.

A grande dificuldade é quando o baile termina. Quando a intensidade do baile se esvai, levando embora o barulho externo e consequentemente aumentando o volume da ressonância interna.

O que sobra? Um relatório dizendo sobre ansiedade, depressão, medo, angústia. Ué?! Mas o carnaval não é um baile de alegria? Na verdade o carnaval tem sido o baile das máscaras. Máscaras de alegrias, felicidades, satisfações, realizações, concretizações. Tudo máscara.  

Assim, quando o uso da máscara passa, a ressaca existencial muitas vezes é tão forte quanto o arrependimento de ter vivido até as últimas consequências usando máscaras existenciais, na tentativa de escapar das angústias rotineiras da vida.

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