Abuso Sexual na Infância

Era uma sexta-feira à noite, estava sentado em uma lanchonete saboreando um belíssimo cachorro-quente após uma reunião que tive na igreja. A TV da lanchonete estava ligada e uma cena de uma novela passando, era uma discussão pelo que pude perceber, vários personagens brigando, os ânimos exaltados, alguns chorando, uns com raiva, outros preocupados. E logo essa cena chamou a minha atenção.

Em meio a tentativas de degustar o meu cachorro-quente – que estava bem quente! – fiquei tentando discernir qual era o motivo da discussão que estava rolando na cena. Até que a aparente vítima esbravejou: “Você abusou de mim quando eu era criança, Fulano… agora eu me lembro!”.

“Aaaah!”, exclamei. “Agora sim, entendi!”. Acompanhei a cena até o final. Depois de saber do que se tratava comecei conversar com a minha esposa (que me acompanhava na lanchonete) sobre o assunto.  

Falamos como o abuso sexual na infância gera consequências para o resto da vida das pessoas que passam por isso se elas não fizerem um acompanhamento com um profissional adequado.

O abuso sexual na infância também mexe comigo por que eu lido diretamente com pessoas, e que muitas dessas, passaram por isso na infância e vejo de maneira palpável como as consequências são muitas vezes avassaladoras! Muitas pessoas constroem sua personalidade, sua maneira de ser em cima desse trauma vivido no passado.

E o mais revoltante é que isso é bastante comum. É um pai, um padrasto, é um tio, é um primo, um amigo próximo da família. Citei esses exemplos pois são os que eu já escutei de pessoas abusadas que uma hora ou outra já passaram pela minha vida.

E o que elas disseram? “Não sabia o que fazer… Não sabia o que estava acontecendo… O que eu poderia fazer? Era o meu pai… Senti raiva de mim, pois percebia que era errado mas tinha curiosidade… Senti como se os meus direitos tivessem sido violados… Era uma pessoa passiva, mas depois disso me tornei reativa com tudo e todos… Queria a minha adolescência de volta… Não gosto que outra pessoa toque em mim… Senti no meu marido o cheiro podre daquele dia, do dia do abuso… Não consigo me relacionar com o meu esposo… Me senti suja, ainda me sinto suja… Não tenho confiança nas pessoas… Sinto dificuldade em me relacionar… Me sinto culpada pelo que aconteceu… Queria perguntar pra essa pessoa por que ele fez isso comigo.”

Essas falas reverberam na minha cabeça. Não posso dizer que sinto a dor delas, mas pude ver como a dor por vezes ainda faz-se presente. A minha dor é por que eu sei que ainda dói nelas.

Por isso cada vez que eu escuto uma história de abuso em que a dor ainda é presente, uma revolta é gerada em mim. Por conta disso tento ao máximo incentivar cada um que passou por isso a ser realmente alguém que vence a dor, a ser um vencedor.

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